APARTAMENTO INGLESES, 280 m2

partindo do afeto

Gosto de imóveis com história e de transformar espaços. Então, ali estava a minha oportunidade para fazer o que mais amo – transformá-lo!

Jornalista: Este projeto exala afeto...

Felipe Carolo: Realmente ele foi todo construído a partir do afeto. Este foi o meu primeiro apartamento maior e, como toda casa de arquiteto, meu espaço de experimentação, principalmente para imóveis com mais de 200m2. Eu procurava por um lugar onde pudesse morar e fazer junto o meu escritório. Havia acabado de sair de um apartamento de 35m2 e de desmontar uma pequena sala comercial.  

A ideia de juntar casa e trabalho me fez chegar em um prédio da década de 1950 e, um imóvel com o clima da época, repleto de escolhas datadas e materiais gastos pelo tempo. Se por um lado, encontrei um espaço para as duas coisas, por outro, não foi encantamento de cara, porém vi um grande potencial.

Jornalista: Qual foi o seu ponto de partida para essa transformação?

FC: Eu me lembro do primeiro vinho que tomei na varanda com uma amiga, ex-chefe, com apenas duas cadeiras que eu herdei da minha tia. Tirando os móveis do meu quarto e o do espaço de trabalho, que eu levei das mudanças, era tudo o que eu tinha.

Muito animado, e até um tanto impaciente, eu fazia diversos planos: vou abrir aqui, ali, faço assim e daquele jeito. E ela: calma, Felipe, você vai fazer tudo isso. Só precisa ser aos poucos.

E foi assim. Comecei pela hidráulica e elétrica, piso, rejuntes, janelas, troca de marcenaria. Quando vi, estava quebrando o apartamento inteiro. Foram duas grandes obras – a estrutural, de três meses, e a decoração, ao longo de um ano.

Jornalista: É uma grande mudança sair de um espaço de 35m2 para 280m2 ...

FC: Muito grande. Quando eu estava em busca de um novo imóvel, pensei em algo maior, mas não oito vezes. Acredito no momento das coisas e essa mudança me fez gostar tanto de espaços maiores que hoje não me imagino mais em um imóvel tão menor quanto o que eu vivi antes deste.

E foi esse apartamento que me fez começar a pesquisar mais para espaços maiores. Hoje, atendo todos os tamanhos e tipos de imóveis. Mas os maiores são os meus preferidos por essa possibilidade de experimentações. 

Jornalista: E como foi a escolha do mobiliário?

FC: Eu parti da herança afetiva. Recebi muitos móveis que foram do meu avô, que chegou a ser deputado estadual, e foi lenhador no início da vida. Na década de 1930, ele mandou fazer parte do mobiliário para a casa dele e, felizmente, essas peças chegaram a mim. A mesa de jantar com as cadeiras, o buffet que coloquei como cômoda no quarto, o bar, na sala, isso tudo foi dele e tem a data de fabricação gravada com a assinatura de quem fez embaixo. Tudo muito especial. Partir desse lugar cheio de afeto e de história me ajudou a construir um conceito sobre o que fica e o que vai embora quando desenho um projeto para os meus clientes. Saber valorizar essas peças que contam sobre família, arte, cultura e economia de uma época foi fundamental para o meu trabalho.

Se por um lado,
eu recebi diversos móveis da minha família com esse ar retrô, eu precisava equilibrar o que viria depois.

Jornalista: E você estava em um apartamento antigo, cheio de história também.

FC: Exatamente. Isso me fez desenvolver um diálogo de narrativas ali existentes. Eu comecei tirando o que estava datado, porque não queria um ambiente kitsch. Busquei a valorização da essência do espaço com a atualização do que entraria. Se por um lado, eu recebi diversos móveis da minha família com esse ar retrô, eu precisava equilibrar o que viria depois. Sofás, poltronas, bancos, quadros, lustres, tudo foi pensado para estar em harmonia nessa brincadeira velho-novo, novo-velho.

Jornalista: Como foi esse processo de atualização do espaço?

Jornalista: O corredor me parece bem grande. Como foram as escolhas para a decoração?

FC: Este apartamento tem os espaços muito bem distribuídos. Então, se você está no quarto não vai ouvir mesmo o que acontece nos cômodos da frente. São 7m de corredor da sala até o quarto do fundo. E esse foi um dos motivos para a demora nas escolhas que mais me agradaram. Foram diversos testes e, por mais que não seja super adepto dos espelhos, achei que aqui foram a melhor opção. O sol nasce exatamente de frente para o corredor, então os espelhos refletem a luz. A brincadeira do listrado na passadeira foi para trazer essa coisa repetitiva da distância entre os cômodos.

Jornalista: E os quartos? 

eu comecei pela cama, porque eu amo cama! E essa eu desenhei e fiz diversos testes de base, cabeceira, altura.

Jornalista: Que bela vista dessa varanda!

FC: Esta varanda é um abraço! E o melhor lugar da casa, apesar de ser o menor de tantos bons ambientes. É o espaço para receber os amigos, contemplar São Paulo do alto – estamos no Morro dos Ingleses, um dos lugares mais altos da cidade –, para sentar-se e ficar à toa e à vontade. Eu resolvi trocar a janela e fechar a varanda com um envidraçamento que, se aberto, faz você se sentir em uma área externa. Dali é possível ver a lua, o nascer do sol, então, merecia essa abertura.

Fiz um banco grande com o máximo de ocupação possível, coloquei um pufe para esticar as pernas e duas poltronas bem confortáveis. Foi a maior realização de todas as transformações deste apartamento para mim – o espaço para ficar com os amigos.

Foi a maior realização de todas as transformações deste apartamento para mim.

Jornalista: E como foi a experiência de casa mais trabalho?

FC: Foi muito boa, porque havia espaço para isso. Quando eu resolvo colocar o meu escritório na sala de jantar, eu o faço porque estava ao lado da cozinha. Éramos em três no escritório, eu e mais dois funcionários, e, como a planta do apartamento é bem retangular, fechando as portas havia separação do ambiente residencial do profissional. Foi possível coexistirem os dois mundos no mesmo endereço sem um incomodar o outro.

fotos: Tuca Reines

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